O desenvolvimento psíquico na visão da Psicologia Junguiana

5 Mar 2016

Carls Gustav Jung, em seus estudos, observou que o ego nasce do inconsciente, sendo a relação mãe-bebê imprescindível por permear todas as relações que esta criança irá estabelecer com o mundo que a cerca. Para ele, o desenvolvimento da criança se inicia por meio de um estado indiferenciado que chamou de participação mística, onde não há diferenciação clara entre sujeito e objeto. Este vínculo extremamente forte e profundo justificaria o desejo de regressão e a dificuldade na separação. No decorrer do processo de desenvolvimento da criança ocorre uma transformação da libido (energia psíquica) por meio da diferenciação entre as partes e o todo, permitindo à criança, desta forma, se perceber como um ser inicialmente diferenciado da mãe e, posteriormente, do mundo. 

 

Segundo Carlos Byington, entretanto, Jung não fez estudos mais profundos a cerca do desenvolvimento do ego na primeira metade da vida. Michael Fordham e Erich Neumann, dois de seus principais seguidores, foram os responsáveis pelo desenvolvimento dos estudos referentes à formação arquetípica do ego e suas conseqüências na vida adulta. Byington afirma que Neumann partiu da obra do pesquisador Johann Jakob Bachofen (1815 – 1887) - em que este demonstra que antes do estágio sócio-mitológico patriarcal da cultura Ocidental existiu o estágio sócio-mitológico matriarcal -, base sobre a qual Neumann postula o desenvolvimento da consciência.

Para Erich Neumann, desde cedo, encontramos no indivíduo uma tendência ao automorfismo: "tendência de formar seu próprio ser a partir dos elementos particulares que o constituem no interior da coletividade e, se necessário, independente dela ou em oposição a ela". Afirma, ainda, que o Self determina um derivado de si próprio que é o ego e que tem como função representar os interesses da totalidade.
 

A relação com a mãe é a primeira relação que estabelecemos no mundo e é a partir dela que aprenderemos a nos relacionar com ele. Neumann observa que o filhote da espécie humana é o único que necessita passar por uma fase intra-uterina e uma fase extra-uterina, pois somente consegue atingir um grau de maturidade após vinte e dois meses do seu nascimento, sendo que nesta fase a criança se encontra física e psiquicamente integrada ao corpo da mãe. Num primeiro momento, a criança se confunde com a mãe, não conseguindo se perceber como um ser diferente desta. É através dos olhos da mãe que a criança percebe o mundo. Seu inconsciente está intimamente ligado ao inconsciente da mãe que o alimenta e lhe proporciona proteção, conforto e amor. Ela passa então a significar prazer e tudo o que este possa proporcionar; como contraponto, toda e qualquer sensação de desprazer, de incômodo e de desconforto também estará inicialmente associada a esta relação primal com a mãe.
 

 

Esta fase inicial, pré-egóica, é representada simbolicamente pelo uroboros, a serpente que morde a própria cauda, símbolo que caracteriza a unidade sem opostos dessa realidade psíquica e a ausência de tensão entre os opostos, uma vez que, como nos diz Neumann, a regulação total do organismo da criança se encontra protegida pelo Self da mãe. Nesta fase, mãe e filho formam uma totalidade, não existindo ainda para a criança a discriminação entre mundo interno e mundo externo. Estando contidos na mãe o mundo e o Self, esta é simbolicamente uma fase paradisíaca, em que a criança se encontra totalmente imersa no mundo inconsciente. A criança não possui nem um ego estável nem uma imagem corporal delimitada, e esta imagem é tão grande e ilimitada que, de acordo com Neumann, poderia ser chamada de cósmica.
 

Este Self representado pela relação com a mãe, ao longo do desenvolvimento, deve ser deslocado gradativamente para o interior da criança, e o seu ego aos poucos se tornará apto para o confronto com o "outro", atingindo uma totalidade individual. O estágio matriarcal no qual a consciência principia seu desenvolvimento é regido pelo arquétipo da Grande Mãe. 


O sentimento de segurança, importante na fase primal, quando a criança ainda se encontra dentro de uma realidade unitária, passa a ser representada, nesta segunda fase, pelo sentimento de confiança em relação ao “tu”, uma vez que a mãe representa este “outro” e consequentemente a confiança que a criança poderá adquirir em relação à sociedade em que ela está inserida. É através da confiança de que o seu desconforto será brevemente aliviado por meio da intervenção da “Mãe Boa” que a criança irá desenvolver a habilidade para suportar tensões e se submeter às demandas sociais. A criança desenvolve um ego capaz de uma tolerância positiva, assimilando e integrando as qualidades negativas e positivas dos mundos interno e externo, com possibilidade de aceitar a si mesmo e ao meio ambiente ao qual está inserido, preservando a unidade da personalidade. Segundo Neumann: “essa confiança é indispensável para a estabilidade do eixo ego-Self, que é a coluna dorsal do automorfismo individual e posteriormente, de uma consciência e de um ego estáveis.”

 

A fase seguinte é marcada pelos arquétipos da Anima e do Animus, as imagos contra-sexuais adormecidas no inconsciente.

 

Essa imagens são projetadas externamente através da busca de um parceiro, considerado este o tema principal da primeira metade da vida. É a fase da Alteridade, do encontro com o “outro”, encontro que se caracteriza pela conquista e libertação do herói. O objeto de busca do herói, o tesouro, aparece em lendas e contos de fadas como sendo ora uma princesa, ora o cálice sagrado ou o elixir da imortalidade, representando a busca de algo interior, ou seja, a própria alma.

 

Este estágio relaciona-se à transformação da masculinidade, da força do ego e ao mesmo tempo a transformação da sua relação com o elemento feminino interno. Ocorre neste processo a separação do aspecto de feminilidade da Mãe Terrível, a superação desta e a cristalização da Anima a partir do arquétipo da mãe. O ego é agora capaz de vivenciar de forma criativa sua posição central, através do eixo ego-Self. Para Byinton: “Trata-se de um ego capaz de desapegar-se do seu narcisismo, ‘virar a outra face’ ou ‘amar ao próximo como a si mesmo’ porque sabe a função do Outro no seu desenvolvimento, a tal ponto que pode realmente empatizar o Outro e imaginar trocar de posições com ele.”

 

Esta é a principal fase da relação dialética entre o “outro” e o automorfismo que busca tornar o indivíduo um ser único, capaz de viver a sua individualidade e o verdadeiro sentido da sua existência. É a fase em que se inicia o processo que Jung denominou de individuação, em que ocorre o confronto entre o ego e os elementos arquetípicos da Sombra e Anima (na personalidade do homem) e Animus (na personalidade da mulher). O ego, dada a necessidade de adaptação às exigências externas, afastou-se, nos primeiros estágios do desenvolvimento psíquico, do Self; agora deverá fazer o movimento contrário, de retorno à sua verdadeira essência. Contudo, este processo não significa um isolamento ou afastamento social, mas sim o aprimoramento da capacidade de viver a sua unicidade em meio à sociedade. O fato do homem ser um animal social é parte da sua essência e negá-lo seria negar a si mesmo.  Esta, portanto, é uma das mais difíceis “tarefas” do homem no caminho do seu desenvolvimento psíquico, atuar de forma criativa numa sociedade que nem sempre respeita as necessidades do indivíduo.

 

A partir do processo de individuação o homem caminha para a última fase do desenvolvimento psíquico descrita por Neumann: a fase cósmica, caracterizada pelos símbolos da totalidade, entre eles, a Eternidade e o Infinito. A consciência, então, passa a perceber a grandiosidade do Self e a se aproximar dele. Como nos diz Byington, a vivência da totalidade é uma vivência do Self que orienta o ego em todo o seu desenvolvimento, surgindo, portanto, em todas as etapas do processo, por meio das imagens arquetípicas, como por exemplo, na fase matriarcal através da proteção da mãe, na fase patriarcal através da família ou da sociedade, na fase da alteridade através do casamento ou da criatividade profissional, sendo o processo existencial e o cosmos os símbolos da totalidade nesta última fase.

 

Segundo Byington, não há fundamento em se dizer que a separação em relação à mãe nos abandone à vivência do paraíso perdido transformada em uma busca incessante. A vivência de plenitude e satisfação absoluta é uma vivência do Self pela qual o ego passará muitas vezes na vida, desde que se disponha a abdicar do que já está vivido e morto e a buscar novamente o Todo quando este se anuncia por intermédio de novos símbolos.

 

Bibliografia

 

BYINGTON, Carlos. Junguiana – “O desenvolvimento Simbólico da Personalidade”. In: Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica no. 1 .S. Paulo. Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. 1983.

BYINGTON, Carlos. Junguiana – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica no.1 (O desenvolvimento Simbólico da Personalidade, p.24), 1983.

NEUMANN, Erich. A Criança – Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação. S. Paulo: Cultrix, 1995, 10a. edição.

NEUMANN, Erich. História da Origem da Consciência. S. Paulo: Cultrix 1995, 10a  edição.

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