A análise da escrita é um ato de compreensão e de interpretação dos pequenos gestos fixados no papel.
Todos os movimentos e gestos humanos estão carregados de significados e contribuem para expressar a personalidade do indivíduo como um todo.
Quando observamos a expressão facial de uma pessoa, percebemos as características de euforia, de dor e de alegria sem termos necessariamente que refletir entre a causa e o efeito dos sentimentos e sua expressão. É suficiente captar instintivamente e intuitivamente o que a fisionomia expressa. Percebemos quando um sorriso é afetado ou sincero, ainda que não saibamos decidir que contração de músculos ou que combinação de contrações produzem a diferença entre o sorriso sincero e o afetado.
O grafólogo pode se utilizar desta mesma compreensão para entender o psiquismo sem que necessariamente se atente para a origem ou a base mecânica do grafismo. É claro que é de grande interesse aprofundar-se e estudar as condições fisiológicas da escrita, porém não é indispensável para se fazer uma boa análise. A interpretação do grafismo está fundamentada na imagem, tal qual ela se apresenta, e não necessariamente sobre as condições de sua origem.
A escrita, ainda que seja um movimento fixado no papel, é essencialmente dinâmica. É uma das expressões mais espontâneas da atividade psíquica. É importante perceber que o movimento da escrita se compõe de dois movimentos diferentes: os movimentos de origem consciente e inconsciente. As intenções conscientes, ou o desejo de produzir efeito, pode levar o escritor, por exemplo, a adotar uma escrita de "aparência", ou a imitar a escrita de uma pessoa a qual admira, mas apesar disso, elementos inconscientes se mesclam ao traçado na forma de pequenos sinais de inibição. Crepieux Jamim, em seu livro ABC de Grafologia, observava que os pequenos sinais, aparentemente insignificantes, tem mais valor que as formas atraentes das grandes letras. Não fazia, de qualquer forma, distinção entre os elementos conscientes e inconscientes do traçado. Max Pulver, baseado em uma concepção psicanalista, insiste muito nesta distinção.
As projeções do consciente e inconsciente se interpenetram no ato de escrever, tanto quanto o podem fazer os elementos de ordem coletiva e individual. A projeção, especialmente, joga um papel principal. "Todo elemento psíquico inconsciente, afirma Jung, se projeta para fora".
Ao escrever, projetamos no papel formas simbólicas, vivas em nós mesmos, que expressam nossa vida interior. Modificamos assim as formas tradicionais, caligráficas, de acordo com as idéias conscientes e as imagens inconscientes que determinam nossa personalidade.
Toda produção inconsciente está fundamentada sobre as mesmas premissas, ou seja, toda representação psíquica ocupa o mesmo lugar no espaço. As mesmas representações arquetípicas, o mesmo simbolismo do espaço se encontra no sonho e na escrita.
Quando escrevemos nos colocamos em um espaço. A folha de papel representa o mundo onde evoluímos e cada movimento da escrita simboliza nosso comportamento neste mundo.
O SIMBOLISMO ACIMA - ABAIXO
Este está igualmente estendido no mundo inteiro com alguns matizes diferentes que variam de acordo com as concepções de bases religiosas e místicas, dos povos e suas civilizações. A humanidade tem considerado sempre o mundo acima como regido pelos deuses e os anjos e o mundo abaixo como domínio do diabo e dos demônios.
Nossa linguagem está repleta de simbolismo do espaço. Tendemos a representar o espírito acima e a matéria abaixo. Inclusive quando acreditamos que Deus, espírito puro, está em todas as partes, e que é todo, inevitavelmente o representamos no espaço acima de nós mesmos. E, portanto, é muito natural que nos sonhos, assim como na escrita, um movimento feito acima represente um movimento simbólico, espiritual.
A parte superior engloba todas as representações antigas e modernas do celeste, do divino |